Dezembro 10, 2023

Relatora elogia lei de reparação no Brasil para famílias separadas pela hanseníase

Por Vanio Gonçalvez Vânio Goncalves

Relatora elogia lei de reparação no Brasil para famílias separadas pela hanseníase

 

A relatora especial da ONU* para a Eliminação da Discriminação contra Pessoas Afetadas pela Hanseníase elogiou nesta sexta-feira os avanços legislativos no Brasil para proteger e promover os direitos humanos das crianças separadas dos pais afetados pela hanseníase.

Beatriz Galarza parabenizou “todos os defensores dos direitos humanos, incluindo o Movimento Nacional para a Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, Morhan, por esta conquista”.

Política de segregação

O ex-coordenador nacional do Morhan, Artur Custodio, conversou com a ONU News e destacou que a política de segregação ligada à doença persistiu mesmo depois do avanço da ciência e o desenvolvimento da cura. Ele explicou a importância e o alcance da nova lei.

“No caso do Brasil e vários outros países, as pessoas podiam ter filhos, mas os filhos eram retirados delas. E muitos não se sabe o paradeiro, é preciso fazer banco genético. Então o presidente Lula em 2007 fez por medida provisória uma indenização para as pessoas afetadas pela hanseníase que ficaram isoladas em colônias. E agora, em 2023, cumpre uma segunda etapa, dando uma indenização, uma reparação pelo crime de Estado também para os filhos que foram tirados dos pais e por outro lado complementando a lei do passado e dando a reparação também para aquelas pessoas que foram isoladas na floresta Amazônica e que não tinham sido reconhecidas porque não ficaram em hospitais”.

Artur Custódio, ex-coordenador Nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase, Morhan

Medidas de reparação 

Para Custodio, este é “um importante passo da justiça de transição”. Porém, o ativista defende que outros passos são ainda necessários, como a melhoria do acesso à saúde, à assistência social e a preservação da memória.

Entre 1923 e 1986, cerca de 16 mil crianças foram separadas dos pais que sofriam de hanseníase e enviadas para abrigos, sob a política de segregação forçada vigente no Brasil na época.

Em 24 de novembro de 2023, em linha com as recomendações anteriores das Nações Unidas, o presidente do Brasil assinou uma lei que estipula que a bolsa mensal paga às pessoas com hanseníase não pode ser inferior ao salário-mínimo.

A nova legislação determina ainda que as crianças que foram separadas dos pais também podem receber o auxílio como medida de reparação.

Luta de décadas

A relatora especial incentivou o governo brasileiro a “implementar esta lei com os recursos e estruturas necessárias e a garantir que os casos sejam examinados e decididos pela comissão interministerial de forma rápida e eficaz”.

Estas crianças separadas têm lutado por reparações por parte do Estado e apresentaram vários processos em tribunais estaduais ao longo da última década.

Segundo Beatriz Galarza, “o Brasil não foi exceção”, ressaltando que crianças também foram separadas dos pais e cuidadores e excluídas da sociedade por causa da hanseníase em muitos outros países.

Exemplo a ser seguido

Como resultado, muitas pessoas que sofreram estas violações não têm acesso a um nível de vida adequado e à autonomia econômica, e muitas enfrentam “deficiências psicossociais que dificultam a sua inclusão social”.

A especialista da ONU instou outros Estados a seguirem o exemplo do Brasil e fornecerem com urgência reparações simbólicas e materiais e o apoio necessário às pessoas que, quando crianças, foram separadas de seus pais afetados pela hanseníase e segregadas da sociedade.

*Os relatores especiais trabalham de forma voluntária e não recebem salário pelo seu trabalho.

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