{"id":606,"date":"2024-01-05T19:37:45","date_gmt":"2024-01-05T19:37:45","guid":{"rendered":"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/blog\/?p=606"},"modified":"2024-01-05T19:37:46","modified_gmt":"2024-01-05T19:37:46","slug":"criar-filhos-sem-ajuda-prejudica-as-criancas-diz-pediatra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/blog\/criar-filhos-sem-ajuda-prejudica-as-criancas-diz-pediatra\/","title":{"rendered":"Criar filhos sem ajuda prejudica as crian\u00e7as, diz pediatra"},"content":{"rendered":"\n<h1>Criar filhos sem ajuda prejudica as crian\u00e7as, diz pediatra<\/h1>\n<p>Nascido em Nova York e formado em medicina pela State University of New York, o pediatra Harvey Karp abriu seu primeiro consult\u00f3rio do outro lado dos Estados Unidos, em Los Angeles. L\u00e1, ele atendeu tanto as pessoas por tr\u00e1s das c\u00e2meras, roteiristas, produtores, figurinistas, quanto as celebridades. &#8220;Tive um bom n\u00famero deles, como Pierce Brosnan, Michelle Pfeiffer, Larry David, Madonna. As pessoas acabavam me encontrando&#8221;, disse o m\u00e9dico, em entrevista por Zoom, editada neste texto.<\/p>\n<p>Karp lan\u00e7ou, em 2002, &#8220;O Beb\u00ea Mais Feliz do Peda\u00e7o&#8221;, um best-seller instant\u00e2neo e que n\u00e3o para de vender e de ser passado de m\u00e3o em m\u00e3o de cuidadores de crian\u00e7as mais velhas para pais de rec\u00e9m-nascidos.<\/p>\n<p>Tornou-se um fen\u00f4meno liter\u00e1rio que nunca saiu da lista dos mais vendidos. Traduzido em mais de 30 l\u00ednguas, baseia-se em um conceito muito simples: \u00e9 poss\u00edvel fazer um beb\u00ea se acalmar e, consequentemente, dormir, simulando os truques para os quais todos os cuidadores apelam quando nada mais funciona: enrolar bem o beb\u00ea como um burrito, fazer um pouco de movimento, como passear de carro ou chacoalhar de leve, um barulhinho constante, como o de um secador de cabelo ou mesmo de uma pessoa fazendo sons com a boca, e dar uma chupeta.<\/p>\n<p>O livro fez de Karp um homem rico e famoso e resolveu o problema de muitos pais desesperados. Mas criou outro, bastante mais complexo. Para seguir essas regras t\u00e3o simples era preciso que um adulto ficasse acordado. Ent\u00e3o, o pediatra tentou resolver o problema seguinte: como garantir que o beb\u00ea dormisse a noite inteira em seguran\u00e7a e sozinho no quarto, para que, assim, os pais tamb\u00e9m pudessem descansar?<\/p>\n<p>E desse desafio surgiu o SNOO, um ber\u00e7o el\u00e9trico que faz com que o beb\u00ea fique contido e que balan\u00e7a automaticamente quando percebe choro, faz um barulhinho parecido com o que o feto ouve durante os meses em que est\u00e1 sendo gestado e transmite informa\u00e7\u00f5es aos pais por wi-fi, direto para os celulares.<\/p>\n<p>O problema do SNOO, no entanto, \u00e9 que \u00e9 car\u00edssimo, cerca de R$ 8.500. Agora, o desafio do pediatra \u00e9 torn\u00e1-lo acess\u00edvel a todas as m\u00e3es de primeira viagem, sejam elas ricas, pobres, saud\u00e1veis, doentes, mais velhas, mais novas, com bab\u00e1s ou sem ningu\u00e9m. O que, ali\u00e1s, Karp considera &#8220;a grande mentira&#8221; dos nossos tempos. &#8220;A fam\u00edlia normal n\u00e3o \u00e9 formada por dois pais e uma crian\u00e7a. Isso \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o social&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>Por que o senhor diz que a fam\u00edlia formada por um casal e uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 normal?<\/p>\n<p>Quando consideramos a evolu\u00e7\u00e3o humana, isso \u00e9 completamente anormal. A fam\u00edlia estendida \u00e9 o normal. A fam\u00edlia nuclear \u00e9, de muitas maneiras, um caminho errado. Pense nisso dessa forma: se s\u00e3o dois pais e uma crian\u00e7a em uma casa, quantos relacionamentos essa crian\u00e7a pode ter? A crian\u00e7a tem um relacionamento com a m\u00e3e, com o pai, com ambos os pais juntos e consigo mesma. \u00c9 muito pouca gente. \u00c9 muito trabalhoso para os pais e prejudicial para a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O que seria uma fam\u00edlia normal?<\/p>\n<p>Durante toda a hist\u00f3ria, at\u00e9 muito recentemente, as fam\u00edlias moravam perto [uns dos outros]. Voc\u00ea tinha tr\u00eas irm\u00e3os, av\u00f3s por perto e as crian\u00e7as da casa ao lado, o que d\u00e1 um total de 12 pessoas, no m\u00ednimo, o n\u00famero de combina\u00e7\u00f5es a\u00ed passa de cem. O impacto disso em nossos filhos \u00e9 imenso. Vimos isso claramente durante a pandemia. O que deixa os pais loucos \u00e9 que eles n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam que cozinhar, limpar, trabalhar e manter um relacionamento, mas tamb\u00e9m t\u00eam que ser cuidadores em tempo integral e companheiros de brincadeiras para seus filhos pequenos. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Leva o dia inteiro para ser um companheiro de brincadeiras. Quando voc\u00ea n\u00e3o tem outras pessoas por perto, as crian\u00e7as e os pais sofrem.<\/p>\n<p>O que um casal deve fazer se mora longe do resto da fam\u00edlia e tem um beb\u00ea?<\/p>\n<p>As pessoas que contratam bab\u00e1s ou colocam seus filhos em creches n\u00e3o est\u00e3o fazendo nada de errado muito menos abdicando de suas responsabilidades, est\u00e3o fazendo algo bom e proporcionando um ambiente socialmente muito mais rico para seus filhos. Descobriu-se que o maior indicador de depress\u00e3o p\u00f3s-parto n\u00e3o \u00e9 a falta de ajuda que voc\u00ea tem ap\u00f3s o nascimento do beb\u00ea, mas a expectativa de ter ajuda ou de n\u00e3o precisar dela \u2014e depois, de repente, precisar. \u00c9 um desajuste entre expectativa e realidade.<\/p>\n<p>Quer dizer que \u00e9 melhor tolerar uma sogra intrometida do que fazer tudo sozinha?<\/p>\n<p>N\u00e3o precisa exagerar. Mas, de novo, \u00e9 normal que os parentes ajudem uma nova m\u00e3e. O beb\u00ea n\u00e3o \u00e9 \u00fanico trabalho de uma nova m\u00e3e, ela muitas vezes precisa cozinhar, limpar, lavar a roupa. Ent\u00e3o a av\u00f3, a sogra, a irm\u00e3, a vizinha poderiam segurar o beb\u00ea no colo. As mulheres costumavam compartilhar essas responsabilidades. Isso era uma fam\u00edlia normal. Agora, dizem \u00e0s mulheres que elas t\u00eam que segurar o beb\u00ea o tempo todo, cantar para o beb\u00ea enquanto ele dorme porque o c\u00e9rebro dele est\u00e1 se desenvolvendo. As responsabilidades s\u00f3 se multiplicam. Precisamos ajudar as pessoas a aprender como equilibr\u00e1-las para que n\u00e3o fiquem t\u00e3o cansadas que n\u00e3o consigam cuidar nem de si mesmas nem de seus beb\u00eas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que as mulheres devem fazer todo o trabalho? Como esse modelo pode funcionar quando ambos os pais precisam trabalhar em tempo integral?<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo isso, de maneira nenhuma. Costumava ser assim e funcionava bem melhor do que nos dias de hoje, mas as coisas mudaram. Nos Estados Unidos temos visto cada vez mais homens cuidando de crian\u00e7as. Ainda \u00e9 um percentual pequeno em compara\u00e7\u00e3o com o que as mulheres fazem, mas \u00e9 duas ou tr\u00eas vezes mais do que os homens costumavam fazer. A outra coisa \u00e9 que as mulheres precisam ser mais bem remuneradas. Atualmente, as mulheres fazem mais trabalho dom\u00e9stico porque os homens geralmente ganham mais dinheiro no emprego. E isso faz sentido. Mas \u00e0 medida que pagamos mais \u00e0s mulheres, haver\u00e1 mais homens que podem cuidar das crian\u00e7as. Os homens podem fazer isso perfeitamente bem. N\u00e3o podemos amamentar muito bem, mas podemos fazer outras coisas muito bem.<\/p>\n<p>A realidade brasileira, socialmente muito mais injusta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o de quem faz trabalhos dom\u00e9sticos ou cuida das crian\u00e7as, permite que muitas fam\u00edlias tenham ajuda o tempo todo. Isso parece bom para os pais e para as crian\u00e7as, mas e para quem faz os trabalhos dom\u00e9sticos ou de bab\u00e1?<\/p>\n<p>Esse \u00e9 outro problema que precisa ser resolvido. Precisamos pagar muito mais \u00e0s mulheres que trabalham com cuidados infantis, para que tenhamos pessoas inteligentes e capazes, e n\u00e3o apenas adolescentes de 15 anos sem nenhuma experi\u00eancia [nos Estados Unidos \u00e9 comum que estudantes adolescentes cuidem de crian\u00e7as na aus\u00eancia dos pais, como um bico], mas, sim, pessoas que veem isso como uma profiss\u00e3o. Todas essas mudan\u00e7as sociais v\u00e3o ocorrer quando a gente reconhecer que \u00e9 fundamental apoiar as novas fam\u00edlias, o que tornar\u00e1 a vida de todo mundo melhor e, no final das contas, reduzir\u00e1 os custos com sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum ouvir falar de depress\u00e3o p\u00f3s-parto, mas acho que existe a depress\u00e3o dos dois anos, a depress\u00e3o dos cinco anos. Voc\u00ea concorda com isso?<\/p>\n<p>Conforme a crian\u00e7a cresce, aumentam a culpa e os problemas. Muitas pessoas que est\u00e3o criando filhos hoje nunca seguraram um beb\u00ea antes na vida. Isso n\u00e3o existia na cultura humana at\u00e9 os \u00faltimos 50 anos. Em geral, quando uma mulher tinha um beb\u00ea, ela j\u00e1 tinha anos de experi\u00eancia criando os irm\u00e3os, as irm\u00e3s, os primos. N\u00e3o precisava de nenhuma intui\u00e7\u00e3o ou essas crendices populares sobre instinto materno, as pessoas aprendiam com a experi\u00eancia. Os pais de hoje n\u00e3o t\u00eam essa experi\u00eancia e, pior, como s\u00e3o bem educados academicamente, acreditam que v\u00e3o resolver tudo com o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>As coisas mudaram muito na pediatria desde que voc\u00ea come\u00e7ou a praticar at\u00e9 os dias de hoje?<\/p>\n<p>Sim, muito, e sempre v\u00e3o mudar. Quando comecei a clinicar, fui treinado para dar \u00f3pio a beb\u00eas que choravam muito. O tratamento m\u00e9dico normal era chamado de pareg\u00f3rico, que era \u00f3pio misturado com \u00e1lcool. Voc\u00ea podia comprar isso em qualquer farm\u00e1cia. Depois aprendemos que os beb\u00eas devem ficar presos em cadeirinhas quando est\u00e3o no carro, e n\u00e3o no colo da m\u00e3e no banco da frente. Ent\u00e3o aprendemos diferente do que eu sempre ensinava \u00e0s pessoas, que o beb\u00ea s\u00f3 deveria dormir de bru\u00e7os, o que era muito perigoso e tivemos que mudar nossa abordagem. Os beb\u00eas devem dormir de lado. Agora, quero ensinar \u00e0s pessoas que elas devem deixar os beb\u00eas contidos quando est\u00e3o dormindo, o que \u00e9 muito mais seguro do que deix\u00e1-los soltos no ber\u00e7o, onde podem rolar e ficar numa posi\u00e7\u00e3o em que prendem a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>HARVEY KARP<\/p>\n<p>Pediatra formado em medicina pela State University of New York, \u00e9 criador do ber\u00e7o el\u00e9trico SNOO e autor de diversos livros traduzidos para mais de 30 idiomas, entre eles o best-seller \u2018O Beb\u00ea Mais Feliz do Peda\u00e7o\u2019 (2002).<\/p>\n<p>Como parte da iniciativa Todas, a Folha presenteia mulheres com dois meses de assinatura digital gr\u00e1tis<\/p>\n\n<p>Para ter uma vida saud\u00e1vel pode contar com os <a href=\"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/\">Planos de Sa\u00fade<\/a> chame consultor e solicite <a href=\"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/\">Cota\u00e7\u00e3o do Plano de Sa\u00fade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Criar filhos sem ajuda prejudica as crian\u00e7as, diz pediatra Nascido em Nova York e formado em medicina pela State University of New York, o pediatra Harvey Karp abriu seu primeiro consult\u00f3rio do outro lado dos Estados Unidos, em Los Angeles. 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