{"id":1070,"date":"2024-05-23T21:51:18","date_gmt":"2024-05-23T21:51:18","guid":{"rendered":"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/blog\/?p=1070"},"modified":"2024-05-23T21:51:19","modified_gmt":"2024-05-23T21:51:19","slug":"lingua-de-sinais-em-microcomunidades-surdas-mostra-que-barreiras-sao-sociais-nao-linguisticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/blog\/lingua-de-sinais-em-microcomunidades-surdas-mostra-que-barreiras-sao-sociais-nao-linguisticas\/","title":{"rendered":"L\u00edngua de sinais em microcomunidades surdas mostra que barreiras s\u00e3o sociais, n\u00e3o lingu\u00edsticas"},"content":{"rendered":"\n<h2>L\u00edngua de sinais em microcomunidades surdas mostra que barreiras s\u00e3o sociais, n\u00e3o lingu\u00edsticas<\/h2>\n<p>As l\u00ednguas de sinais s\u00e3o t\u00e3o antigas quanto a hist\u00f3ria da humanidade. Evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas fortalecem hip\u00f3teses acerca do uso de sistemas gestuais de comunica\u00e7\u00e3o antes do surgimento do Homo sapiens, que apresentaram como salto evolutivo, entre outros aspectos, altera\u00e7\u00f5es na laringe que permitiram uma modula\u00e7\u00e3o mais fina dos sons, o que, consequentemente, levou ao desenvolvimento da fala.<\/p>\n<p>Hoje, no contexto brasileiro, ao pensarmos em l\u00ednguas de sinais, o que nos vem \u00e0 mente \u00e9 provavelmente a libras, a l\u00edngua brasileira de sinais. Todavia, essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica l\u00edngua de sinais usada nas comunidades surdas do pa\u00eds. A mesma vis\u00e3o equivocada de preval\u00eancia do monolinguismo no Brasil, no que diz respeito aos ouvintes, atinge tamb\u00e9m as comunidades surdas brasileiras.<\/p>\n<p>Microcomunidades surdas<\/p>\n<p>Existem muitas microcomunidades surdas, espalhadas em diversas regi\u00f5es do pa\u00eds, que se utilizam de l\u00ednguas de sinais cujas estruturas gramaticais e vocabul\u00e1rio est\u00e3o afastados da libras. Por conta do isolamento social ou geogr\u00e1fico e da falta de pol\u00edticas educacionais espec\u00edficas, membros dessas comunidades, que n\u00e3o interagem com surdos de fora da comunidade, n\u00e3o chegam a ter contato efetivo com a l\u00edngua de sinais institucionalizada.<\/p>\n<p>Cuide-se<br \/>\nCi\u00eancia, h\u00e1bitos e preven\u00e7\u00e3o numa newsletter para a sua sa\u00fade e bem-estar<\/p>\n<p>De modo algum, entretanto, essas pessoas est\u00e3o isoladas linguisticamente da comunidade da qual participam, pois ali a maioria das pessoas, surdas e ouvintes, utiliza uma l\u00edngua de sinais que podemos chamar de natural ou emergente. Essas l\u00ednguas de sinais t\u00eam estruturas diferentes da libras e, a depender do n\u00famero de pessoas e de gera\u00e7\u00f5es de surdos, podem apresentar maior estabilidade e sistematiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As pesquisas sobre essas l\u00ednguas de sinais de microcomunidades t\u00eam revelado seu grande potencial para a lingu\u00edstica e para os estudos sobre a defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria cercada de preconceitos<\/p>\n<p>Infelizmente, as refer\u00eancias hist\u00f3ricas \u00e0s pessoas surdas e \u00e0s l\u00ednguas sinalizadas d\u00e3o conta principalmente de situa\u00e7\u00f5es de priva\u00e7\u00e3o de direitos civis e lingu\u00edsticos, assim como da nega\u00e7\u00e3o do estatuto lingu\u00edstico dessas l\u00ednguas. Ao longo da hist\u00f3ria, as pessoas surdas foram proibidas de exercer sua cidadania, de obter educa\u00e7\u00e3o formal e de interagir integralmente na vida social de sua comunidade, formada majoritariamente por indiv\u00edduos ouvintes.<\/p>\n<p>S\u00f3 a partir do final do s\u00e9culo 18, quando s\u00e3o criadas as primeiras escolas de surdos, vemos verdadeiramente uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a essa marginaliza\u00e7\u00e3o. Orientados pelo trabalho pioneiro do Abade Charles-Michel de l&#8217;\u00c9p\u00e9e (1712-1789), fundador da primeira escola de surdos do mundo, em Paris, os educadores de surdos passaram a usar pela primeira vez as l\u00ednguas de sinais como l\u00edngua de instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atribu\u00edmos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dessas escolas o nascimento das l\u00ednguas de sinais nacionais, como a L\u00edngua de Sinais Francesa, a L\u00edngua de Sinais Americana e at\u00e9 mesmo a L\u00edngua Brasileira de Sinais, a libras, cuja emerg\u00eancia est\u00e1 relacionada \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da primeira escola de surdos do pa\u00eds, em 1856, por D. Pedro II, no Rio de Janeiro: o INES, hoje Instituto Nacional de Educa\u00e7\u00e3o de Surdos.<\/p>\n<p>O uso das l\u00ednguas de sinais como l\u00edngua de instru\u00e7\u00e3o em escolas de surdos por todo mundo, no entanto, foi proibido de acordo com delibera\u00e7\u00e3o tomada no Congresso de Mil\u00e3o, em 1880. Foram 100 anos de proibi\u00e7\u00e3o, que impactaram significativamente a educa\u00e7\u00e3o de surdos. S\u00f3 entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1970 as l\u00ednguas de sinais voltam a ser aceitas nas escolas de surdos.<\/p>\n<p>https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/webstories\/cotidiano\/2021\/05\/como-funciona-a-lingua-brasileira-de-sinais\/<\/p>\n<p>Todavia, apenas em 2002 o governo brasileiro reconheceu legalmente a l\u00edngua brasileira de sinais, libras, atrav\u00e9s da Lei 10.436. A Lei de Libras, como ficou popularmente conhecida, assumiu oficialmente o estatuto lingu\u00edstico da libras, com estrutura gramatical pr\u00f3pria, que \u00e9 reconhecidamente diferente do portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia das escolas<\/p>\n<p>No mundo todo, as escolas de surdos t\u00eam papel fundamental no desenvolvimento de l\u00ednguas de sinais comunit\u00e1rias, uma vez que 95% das pessoas surdas nascem em fam\u00edlias ouvintes n\u00e3o sinalizantes. \u00c9 primordialmente na escola de surdos que muitas crian\u00e7as passam a ter contato com outras crian\u00e7as e professoras e professores surdos, num ambiente em que a l\u00edngua de sinais \u00e9 usada pela comunidade.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante que a crian\u00e7a surda tenha contato com a l\u00edngua de sinais o mais cedo poss\u00edvel, porque essa ser\u00e1 a \u00fanica l\u00edngua que poder\u00e1 aprender naturalmente. Sem receber esse rico input lingu\u00edstico, a crian\u00e7a surda passa pelo que alguns especialistas chamam de priva\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica.<\/p>\n<p>O contato da crian\u00e7a surda com a comunidade surda, no entanto, \u00e9 muitas vezes desaconselhado por profissionais da medicina e fonoaudiologia, que priorizam a reabilita\u00e7\u00e3o por meio de t\u00e9cnicas de oraliza\u00e7\u00e3o ou terapias de fala e utiliza\u00e7\u00e3o de pr\u00f3teses auditivas e implantes cocleares.<\/p>\n<p>Como afirma a doutora em lingu\u00edstica aplicada Audrei Gesser, &#8220;o discurso (a favor do implante coclear) est\u00e1 claramente amarrado ao ideal de um indiv\u00edduo que fala e ouve e esse desejo passa pelo discurso da cura, que prega a recupera\u00e7\u00e3o da audi\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de uma l\u00edngua oral&#8221;.<\/p>\n<p>Esse est\u00edmulo ao aprendizado da l\u00edngua oral \u00e9 ancorado numa vis\u00e3o capacitista e equivocada, que imputa \u00e0 crian\u00e7a surda, por um lado, seu isolamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade surda sinalizante, e, por outro, a ades\u00e3o compuls\u00f3ria a tecnologias corretivas, como o implante coclear.<\/p>\n<p>Nos centros urbanos, um dos papeis fundamentais das escolas de surdos, como o INES, e das pol\u00edticas lingu\u00edsticas advindas da Lei de libras \u00e9 o de congregar membros da comunidade surdas, viabilizando a comunica\u00e7\u00e3o natural em l\u00edngua de sinais, promovendo a constru\u00e7\u00e3o da identidade surda. Al\u00e9m disso, essas escolas acabam por fomentar tamb\u00e9m o desenvolvimento de uma variedade mais padronizada da l\u00edngua de sinais, usada nos centros urbanos do pa\u00eds, nos cursos de forma\u00e7\u00e3o de professores e int\u00e9rpretes de libras, nas escolas bil\u00edngues, nos materiais did\u00e1ticos, na m\u00eddia etc.<\/p>\n<p>Onde tem surdos, tem a l\u00edngua de sinais<\/p>\n<p>Mas as l\u00ednguas se desenvolvem independentemente de sua institucionaliza\u00e7\u00e3o, e as comunidades surdas, no mundo inteiro, sempre sinalizaram. Onde tem uma pessoa surda, tem uma comunica\u00e7\u00e3o viso-gestual, tem uma l\u00edngua de sinais.<\/p>\n<p>Pesquisas realizadas pelo Projeto Lucinda Ferreira em comunidades surdas \u2014de Buriti dos Lopes e Va\u0301rzea Queimada, no Piau\u00ed; Tiros, em Minas Gerais; Centro Novo do Maranh\u00e3o e Centro do Guilherme, no Maranh\u00e3o; e Vila de Fortalezinha (Ilha de Maiandeua), no Par\u00e1\u2014 d\u00e3o conta de uma alta incid\u00eancia de nascimento de pessoas surdas nessas localidades. Isso representa um fator determinante para o desenvolvimento de uma l\u00edngua de sinais natural\/emergente, pois a grande quantidade de pessoas surdas possibilita que uma l\u00edngua v\u00e1 se formando e se sistematizando atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De um modo geral, essas microcomunidades adotam, ainda que inconscientemente, pol\u00edticas lingu\u00edsticas sociais e familiares que garantem o uso da l\u00edngua de sinais em diferentes espa\u00e7os e contextos, permitindo que a experi\u00eancia da defici\u00eancia nessas comunidades seja muito diferente da experi\u00eancia de pessoas surdas nos centros urbanos.<\/p>\n<p>De certo modo, o isolamento dessas comunidades lhes garantiu seu direito lingu\u00edstico, mas \u00e9 preciso reconhecer que os indiv\u00edduos surdos se encontram em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, pois, uma vez que o estado brasileiro n\u00e3o reconhece sua l\u00edngua, n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o nem proposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas lingu\u00edsticas e educacionais sens\u00edveis \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica.<\/p>\n<p>Nesse sentido, sendo a libras a \u00fanica l\u00edngua de sinais reconhecida oficialmente, todas as propostas educacionais incluem sua aprendizagem como sendo a \u00fanica e a mais &#8220;correta&#8221;. Mas as pesquisas sobre o tema, no Brasil ou no exterior, suscitam a\u00e7\u00f5es que envolvem principalmente o reconhecimento do estatuto lingu\u00edstico dessas l\u00ednguas emergentes, para que, a partir disso, pol\u00edticas lingu\u00edsticas possam ser elaboradas visando tanto a sua preserva\u00e7\u00e3o quanto a garantia dos direitos lingu\u00edsticos e civis dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas microcomunidades surdas representam um grande laborat\u00f3rio lingu\u00edstico, em que o desejo de comunica\u00e7\u00e3o e de intera\u00e7\u00e3o supera todas as barreiras, deixando uma grande li\u00e7\u00e3o sobre os conceitos de acessibilidade e inclus\u00e3o. O contato com essa realidade lingu\u00edstica nos permite entrever um mundo em que a defici\u00eancia n\u00e3o imp\u00f5e uma barreira na comunica\u00e7\u00e3o, principalmente entre pessoas surdas e ouvintes.<\/p>\n<p>Essas microcomunidades podem nos ensinar muito sobre inclus\u00e3o, j\u00e1 que, nos centros urbanos, onde temos um \u00edndice populacional maior, as pessoas surdas se sentem de fato isoladas, pois raramente conseguem interagir com pessoas ouvintes, que n\u00e3o se interessam e nem est\u00e3o conscientizados sobre a necessidade e a import\u00e2ncia do aprendizado das l\u00ednguas de sinais.<\/p>\n<p>Nas microcomunidades surdas, por outro lado, observamos o uso da l\u00edngua de sinais como uma esp\u00e9cie de l\u00edngua franca, que une surdos e ouvintes de todas as idades, e permite que as pessoas surdas possam desempenhar diferentes papeis sociais, sendo reconhecidas, portanto, n\u00e3o pela defici\u00eancia, mas na sua pot\u00eancia.<\/p>\n\n<p>Para ter uma vida saud\u00e1vel pode contar com os <a href=\"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/\">Austa Plano de Sa\u00fade<\/a> chame consultor e solicite <a href=\"https:\/\/guiadoplanodesaude.com.br\/\">Cota\u00e7\u00e3o do Plano de Sa\u00fade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00edngua de sinais em microcomunidades surdas mostra que barreiras s\u00e3o sociais, n\u00e3o lingu\u00edsticas As l\u00ednguas de sinais s\u00e3o t\u00e3o antigas quanto a hist\u00f3ria da humanidade. 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